Flight Report especial: Azul AD 9652

Postado: 17 de novembro de 2014 | 16:55
_ _ foto: _ foto:

Confira o relato especial do Gianfranco Beting, nosso Diretor de Comunicação e Marca.

Bem-vindo a um voo especial: a jornada entre Campinas/Viracopos e Orlando/McCoy International, o aeroporto que serve a cidade na região central da Flórida. Voaremos no A330 da Azul, aeronave escolhida para inaugura voos internacionais na companhia. Embarque imediato.

Esta não é uma viagem qualquer. É um voo de certificação (Proving Flight), no qual inspetores da autoridade aeronáutica brasileira, a ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil – monitoram, com olhar crítico, todos os processos relativos ao voo. Do catering à manutenção, do despacho operacional ao abastecimento, da manutenção à pilotagem, do check-in ao despacho de bagagens, tudo é examinado no sentido de garantir, ao público viajante, que uma empresa ou até mesmo um novo tipo de aeronave estejam de acordo com a legislação vigente para o transporte regular de passageiros ou carga com total segurança e comodidade.

Os inspetores designados para a viagem monitoram, assim, cada pré-requisito operacional, com margem zero de tolerância para aquilo que não estiver nos manuais. Passar por uma prova como esta era o último desafio que a Azul teria de cumprir antes de receber sua homologação para implementar seus voos internacionais.

Sendo assim, era natural que um clima de energia especial dominasse a área de check-in da companhia naquela manhã de quarta feira. Fui atendido com muita rapidez pela Meire e pelo Reginaldo, que deram um show de simpatia e eficiência. Recebi meu cartão de embarque e fiquei mesmo emocionado ao ler no cartão a etapa: Campinas-Orlando. Muitas memórias vieram à minha cabeça. Particularmente para mim, este voo também trazia todo um significado especial: foi pelo aeroporto de McCoy, em Orlando, que a Transbrasil começou a operar serviços internacionais com seus 767-200, mais de trinta anos antes, em 1984. Uma feliz coincidência.

O fato é que neste voo não levaríamos clientes. Apenas funcionários da companhia, inspetores e a tripulação de três pilotos e dez comissários estariam a bordo, perfazendo um total de 27 ocupantes.

A aeronave escalada para este voo foi justamente o primeiro A330-200 recebido pela companhia em junho de 2014. Matriculado PR-AIZ, leva o nome “América Azul”. O embarque, como não poderia ser diferente, levou poucos minutos e as 11h40 estávamos todos a bordo. Ocupei meu assento, 3A, um dos 24 na cabine dianteira da aeronave. Em sua configuração atual, o “Índia Zulu” apresenta, além destas 24 poltronas de Classe Executiva (chamada na Azul de Business Light) mais 251 poltronas na classe econômica.

É bom lembrar que esta configuração não será a definitiva. A Azul está investindo US$ 10 milhões por aeronave em um programa de total reconfiguração do interior das mesmas, de maneira a apresentar um produto moderno e competitivo. A partir de fevereiro de 2015, cada A330 (serão sete aeronaves na frota até março do ano que vem) terá todo o interior completamente refeito: galleys, banheiros, poltronas, divisórias, carpetes, cortinas, sistema de entretenimento. Tudo será removido e substituído por produtos, sistemas e materiais de última geração, compatíveis com o padrão de cabine de bordo que a companhia irá introduzir nos seus A350-900, que começam a ser entregues em 2017. Mas voltemos a falar do padrão que os Clientes da Azul começam a experimentar a partir de primeiro de dezembro de 2014, quando decola de Campinas o primeiro voo regular para Fort Lauderdale.

Portas fechadas pontualmente as 11h55, trator engatado na bequilha, horário publicado de saída, tivemos que aguardar um pouco na posição remota que o “América Azul” ocupava no pátio “Mike” de Viracopos, até que finalmente, nosso push-back deu-se as 12h01. Mais três minutos, o motor Rolls-Royce Trent esquerdo ganhou vida, ronronando suavemente. Uma mudança de pista, com o vento passando a demandar a operação da pista 15 para a 33, dilatou ainda mais o tempo de espera. Trator desengatado, freio de estacionamento liberado pelo Comandante Ary Nunes, iniciamos o taxi – e uma nova fase na história da Azul – precisamente as 12h20. O taxi foi relativamente curto até a cabeceira da 33, mas a espera seria relativamente longa. Campinas é o hub da companhia, e como tal, recebe mais de 200 voos diários, o que dá uma média de 400 operações por dia. Enquanto aguardávamos, decolaram à nossa frente um ATR e um Embraer 195. Aguardamos mais, assistindo ao pouso de uma Embraer e quatro ATR da companhia até que finalmente a torre Campinas liberou nossa partida.

O relógio marcava 12h40 quando o par de Trents ganhou força. Não estávamos pesados para aquela decolagem, em função de se tratar de um voo sem Clientes pagantes. Sendo assim, a aceleração foi sensível, e em menos de metade da pista o Alpha Índia Zulu ganhou os céus encobertos que cobriam Campinas. Nossa velocidades: V-1 de 129 nós, V-R de 133 e V-2 de 134 nós. O peso máximo do PR-AIZ é de 230 toneladas, mas partimos com 127.000 kg, levando apenas 60.000 kg dos 109.000 kg que o avião comportaria. Trens recolhidos, subimos em frente, executando a subida por instrumentos Rio Claro 1 Alpha, com suave curva à direita. Neste voo, também foi empregado, pela primeira vez, o “callsign” adotado para voos internacionais da companhia: Bluebird.

Gastamos 4.600kg de Jet A-1 até atingir nossa altitude ideal de cruzeiro, 40.000 pés. A estimativa de consumo total para a etapa era de 41.500kg, o que nos deixava com uma margem bastante elástica ade 19.500 kg nos tanques após o pouso. Mantivemos uma velocidade de Mach 0,81 durante todo o percurso de cruzeiro.

Após a decolagem, enfrentamos leve turbulência, suficiente porém para manter os avisos de atar cintos ligados por mais tempo. Tão logo liberada, a tripulação liderada pela Comissária Sênior Cássia Leuzzi iniciou o serviço de almoço. Para este voo de prova, a companhia optou por apresentar os pratos em contêineres descartáveis, bem como por não servir bebidas alcoólicas. A louça e os copos de vidro, a carta de vinhos escolhida com capricho teria que esperar mais, até o voo inaugural regular, que ocorreria somente 19 dias depois.

Ainda assim, foi um padrão bem satisfatório: de entrada, castanhas e bebidas a escolher, acompanhada de cubinhos de queijo de coalho com mel de engenho. Sopa de milho ou salada fresca. Duas opções de entradas: salada fria de confit de magret de pato desfiado com maça verde e vegetais ou, salmão defumado marinado. Como pratos principais, gnocchi de mandioquinha com tomates concassés e molho branco (a Azul sempre irá oferecer uma opção vegetariana) e um tradicional bife strogonoff de filé mignon com arroz branco e batata palha. Sobremesas? Duas opções: queijos e frutas ou uma torta mousse de bolacha Negresco que agradou bastante. Chá ou café completaram os trabalhos. Nos voos regulares, serão quatro opções de pratos quentes na classe executiva e duas opções na econômica.

Aquele era mesmo um voo de trabalho e havia muito o que fazer, além de aproveitar o sistema de entretenimento de bordo. Mais de 20 filmes, entre clássicos e os mais recentes blockbusters, estavam à disposição dos Clientes, em monitores individuais.

Relatórios foram preenchidos, anotações feitas, conversas e pontos de observação discutidos. Foi um começo muito bom, com a tripulação trabalhando de forma elegante e segura. Três horas depois, copinhos de sorvete de baunilha foram oferecidos como um mid-flight snack, que vai ser padrão nos voos da companhia. Além disso, os já tradicionais snacks da Azul (seis opções) ficam todo o tempo nas galleys, para os Clientes que quisessem fazer uma boquinha adicional. Fome ninguém passou!

Lá fora, as nuvens não cediam, dominando boa parte do céu. Grandes cúmulos nimbos atravessavam a nossa rota, com topos acima de 45.000 pés, obrigando os comandantes Nunes e Campello a executar seguidos desvios, ainda que muito suaves. Mantínhamos uma velocidade em relação ao solo de 473 nós, estimando nossa chegada em Orlando para as 16h50 (local) ou 19h50 em Brasília. A temperatura seria de 26 graus, céus claros e pista em operação 17L.

Durante o voo, fui conversar com o comandante da Azul responsável por esta operação. Escalado para nos levar a Orlando estava o Comandante Ary Nunes. Ele é um dos veteranos da Azul (Nº de registro 47 na companhia) e foi escolhido para esta viagem por esta razão. Foi ele também quem comandou o PR-AZL, o primeiro Embraer da companhia em seu voo inaugural, em 15 de dezembro de 2008, decolando pela mesma pista 33 com destino a Salvador. Profissional experiente, tem mais de 15 mil horas de voo, tendo pilotado Bandeirante na Rio-Sul, Electra, Vários tipos de Boeing na Varig. A seu lado, outro veterano com mais de 25 horas de voo estava Douglas Campello, que igualmente voou na Pioneira, onde passou pelo comando de Boeing 737, DC-10 e MD-11. Iam também dois pilotos instrutores da Airbus, além do examinador da ANAC.

Desde aquele voo inaugural para a Bahia, a frota da companhia cresceu de uma para 145 aeronaves; de 0% de participação para 17% de mercado, medida pela oferta em assentos/km oferecidos, ou 25% se mensurada pela receita total; a companhia passou de 800 para 10.000 colaboradores e de dois voos diários para 900 operações a cada 24 horas, representando metade de todas as rotas regulares operadas entre pares de cidades no mercado doméstico brasileiro. Tudo isto em menos de seis anos de vida. Um fenômeno.

Todo este crescimento, talento individual e esforço coletivo desaguavam agora neste voo simbólico: era a primeira ligação comercial, sem escalas, unindo o aeroporto de Campinas aos Estados Unidos.

O PR-AIZ é uma aeronave com onze anos de uso, mas estava muito bem conservada. Anteriormente, operou pela MEA e Gulf Air. Depois de ficar algum tempo em Lake Charles, Louisiana, o grande jato passou por um trabalho minucioso de revisão, repintura nas cores da Azul e então foi entregue para a companhia em junho de 2014. De lá para cá, realizou vários voos de instrução e começou a servir, regularmente, a ligação Viracopos-Recife, voo este que será mantido com Airbus A330-200 mesmo após o início dos voos regulares para Fort Lauderdale e Orlando.

O voo para Orlando será diurno como foi este AD9652. Este horário permite o sobrevoo da a Amazônia e do Caribe durante o dia, o que permite que belíssimas paisagens sejam observadas pela janela. Antes da chegada, a companhia oferece uma segunda refeição quente. Neste caso, havia duas opções: quiche de alho porró ou um croque monsieur de presunto e queijo. Frutas frescas e várias opções de bebidas acompanhavam e concluíam o serviço de refeições neste voo.

O tempo estava aberto e as belas paisagens do Caribe podiam ser observadas abaixo, com dezenas de ilhas rodeadas de coroas de um mar turquesa. Ou o sempre interessante sobrevoo de Cuba, outra vantagem de se voar em plena luz do dia.

Depois de 7h55 horas de um voo absolutamente tranquilo, iniciamos nossa descida para Orlando precisamente as 17h25, hora local. Um magnífico por do sol a oeste emoldurava o motor nº1, em uma cena belíssima… Fomos vetorados em meio ao tráfego diretamente para uma longa final da pista 36R. Cabine preparada para a chegada, expectativa a bordo e a cabeça girando, pensando nos meses de preparação para aquele momento: a Azul chegando aos Estados Unidos e começando sua nova fase de crescimento. Trinta e cinco minutos depois do TOD (Top of Descent), as rodas do PR-AIZ tocaram o solo com suavidade. Minutos depois, fomos recebido pelo entusiasmado time local, que celebrava sem disfarçar a emoção, com gente pulando e se abraçando no próprio finger do portão 24. Missão cumprida: a América, Azul.

Gianfranco “Panda” Beting

 

Deixe uma resposta

Aviso: Todo o conteúdo do blog Azul é aberto a comentários, pois dividir ideias é uma das melhores maneiras para construirmos uma empresa melhor. Independentemente de serem positivas ou negativas para a companhia, as menções serão publicadas, mas todos os comentários serão moderados, a fim de evitar mensagens comerciais e citações ofensivas e/ou fora do contexto.